Definição / Quadro Clínico:
A analgesia e a sedação são pilares da Terapia Intensiva
Pediátrica. Dor, ansiedade, agitação, desconforto e insônia são disfunções
frequentemente apresentadas pelos pacientes internados nas UTIs de todo o
mundo. Logo, promover o cuidado humanizado, garantindo o conforto e o controle
da dor, da ansiedade e do estresse do paciente grave é um dever da equipe
multidisciplinar.
Definições:
Dor é definida como experiência sensorial ou emocional
desagradável associada a um dano real ou potencial a um tecido.
Analgesia consiste na eliminação da sensibilidade à dor, sem
supressão das outras propriedades sensitivas e sem perda de consciência.
Sedação promove o alívio da ansiedade e da agitação e a
indução de estado de calma e tranquilidade. O nível de sedação pode ser mínimo,
moderado (sedação consciente) e profundo.
Tolerância é a diminuição do efeito da droga com o passar do
tempo, traduzindo-se em necessidade de aumentar a dose para obtenção do mesmo
efeito.
Síndrome de abstinência iatrogênica consiste no aparecimento
de sinais e sintomas, quando a administração de sedativos e/ou analgésicos é
descontinuada ou reduzida abruptamente após uso prolongado dos mesmos (> 5 a
7 dias). Ocorre principalmente com o uso de opioides e benzodiazepínicos. Os
sinais e sintomas da síndrome de abstinência incluem:
- Ativação do sistema nervoso central: hipertonicidade,
mioclonias, midríase, hiperreflexia, choro estridente, espasmos musculares,
choro inconsolável, clônus, alucinação, desorientação, crise convulsiva,
tremor, agitação, ansiedade, irritabilidade, insônia, movimentos
coreoatetóticos, alucinações visuais ou auditivas.
- Disfunção gastrointestinal: vômitos, diarreia.
- Disfunção autonômica: taquipneia, hipertensão arterial,
bocejos, espirros, lividez cutânea, taquicardia, febre, sudorese e piloereção.
Delirium é definido como distúrbio da atenção ou da
consciência, acompanhado por mudanças na cognição que não podem ser explicadas
por distúrbio neurocognitivo preexistente. Caracteriza-se por início agudo, com
curso flutuante durante o dia (piora à noite), resultante de condição clínica
ou de seu tratamento. O delirium pode ser hiperativo (caracterizado por
inquietação, agitação, labilidade emocional), hipoativo (apatia, indiferença)
ou misto.
Bloqueio neuromuscular consiste na abolição ou redução da
atividade dos músculos esqueléticos por meio da interrupção total ou parcial da
transmissão entre a terminação nervosa e a placa motora. É fundamental
assegurar sedação e analgesia adequadas antes de promover o bloqueio
neuromuscular.
ANALGESIA
A escolha do agente deve levar em consideração o
procedimento que será realizado, o cenário clínico e as condições fisiológicas
do paciente, assegurando que todos os que forem submetidos a procedimentos
dolorosos recebam medicação analgésica. É importante considerar as variações
individuais na resposta aos agentes sedativos e analgésicos, e as comorbidades,
especialmente hepáticas ou renais, que possam comprometer o metabolismo e a
excreção das drogas.
Avaliação da dor
O paciente em UTI geralmente tem dor, especialmente durante
a execução dos cuidados/procedimentos. O tratamento adequado depende de
ferramentas reprodutíveis de avaliação da dor e da resposta ao tratamento
instituído, já que nem sempre está disponível a verificação da dor por meio da
comunicação verbal. Em crianças muito jovens (recém-nascidos e lactentes), a
avaliação da dor é feita por meio de instrumentos observacionais, que incluem
alterações comportamentais (intensidade e duração do choro; movimentação
corporal; expressão facial), alterações fisiológicas (sudorese, variações de
frequência cardíaca, de pressão arterial, do padrão respiratório e da saturação
de oxigênio) ou ambas:
Em crianças pré-escolares, pode-se utilizar a Escala Facial
de Dor (Anexo 1). Em escolares e adolescentes, a Escala Numérica Verbal
(0=ausência de dor e 10=pior dor imaginável) pode ser usada.
Tratamento da dor
O paracetamol e a dipirona são opções terapêuticas para dor
leve a moderada, assim como os anti-inflamatórios não esteroidais. Os
anti-inflamatórios não esteroidais atuam inibindo a ciclo-oxigenase, bloqueando
a produção de prostaglandina; possuem efeito analgésico e antitérmico, além de
atividade anti-inflamatória.
Os opioides modulam a percepção cortical da dor e são
utilizados para tratamento da dor moderada a grave. Potencializam o efeito
sedativo dos benzodiazepínicos, produzindo sonolência. São drogas lipossolúveis
e devem ser utilizadas com cuidado na insuficiência renal. Em neonatos com a
barreira hematoencefálica imatura deve-se dar preferência para o uso da
morfina, por ser mais hidrossolúvel. Todos os analgésicos opioides são metabolizados
pelo fígado.
SEDAÇÃO
O tratamento intensivo humanizado deve incluir medidas para
evitar o sofrimento físico e emocional. Desta maneira, faz-se necessário o uso
de sedativos para o controle da agitação e da ansiedade, principalmente de
pacientes que necessitam de suporte ventilatório. No entanto, o uso inadvertido
de sedativos pode ter efeitos negativos e se associa ao aumento da
morbimorbidade durante a internação na UTI Pediátrica.
As características do sedativo ideal incluem início de ação
rápido, meia-vida curta, metabolização e eliminação por órgãos menos
suscetíveis à insuficiência (fígado e rins), efeitos secundários mínimos, sem
envolvimento hemodinâmico ou respiratório, nenhuma interação com outros medicamentos e
disponibilidade de um antídoto específico. No entanto, este medicamento ideal
não existe. Dessa forma, a escolha do sedativo deve levar em consideração a
doença de base e os potenciais efeitos adversos relacionados ao medicamento,
priorizando sempre a melhor relação risco-benefício.
Avaliação da Sedação
As escalas de monitorização da sedação mais utilizadas em
pediatria são a escala COMFORT e a Richmond Agitation Sedation Scale (RASS)
(Anexo 2). A escala COMFORT é composta de seis categorias comportamentais
(alerta, calma/agitação, movimento corporal, tônus muscular, tensão facial e
resposta respiratória) e dois parâmetros fisiológicos (frequência cardíaca e
pressão arterial), com pontuação total variando de 8 a 40. Pontuação menor que
17 indica sedação excessiva, entre 17 e 26, sedação adequada, e maior que 26,
sedação insuficiente. A escala COMFORT-Comportamental inclui apenas os parâmetros
comportamentais; pontuação menor que 12 indica sedação excessiva, 12 a 17,
sedação adequada e maior que 17, sedação insuficiente. A escala RASS avalia a consciência
e a capacidade de resposta por meio de parâmetros comportamentais. Sua pontuação
varia de -5 a +4, sendo a pontuação 0 correspondente à classificação alerta e calmo.
SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA IATROGÊNICA
A síndrome de abstinência iatrogênica ocorre após
descontinuação abrupta ou redução súbita da dose de sedativos e analgésicos
administrados por tempo prolongado (mais que 5 a 7 dias), geralmente, em doses
elevadas.
Há várias ferramentas desenvolvidas para diagnosticar e
classificar a gravidade da síndrome de abstinência. A mais usada em crianças é
a WAT-1 (Withdrawal Assessment Tool -Version 1), validada para crianças de
todas as idades.
WAT -1: Pontuação ≥3 indica alta probabilidade de
abstinência.
Aplicar as escalas em pacientes em uso de sedação por mais
de 5 dias.
Aplicar as escalas de 6 em 6 horas a partir do início da
retirada dos sedativos.
Tratamento da Síndrome de Abstinência Iatrogênica
Por Benzodiazepínicos:
- Lorazepam: 0,05 a 0,1 mg/kg/dose, de 6/6 horas até, no
máximo, de 4/4 horas, VO, com dose máxima de 4 mg/dose.
Por Opioides:
- Metadona: 0,0125 a 0,2 mg/kg/dose, de 6/6 horas, VO; com
dose máxima de 10 mg/dose.
Reduzir 20% da infusão EV contínua de benzodiazepínico e/ou
opioide a partir da segunda dose da introdução da medicação via oral (lorazepam
e/ou metadona), suspendendo após 48 h.
* Após a retirada das drogas endovenosas, deve-se proceder à
retirada gradual das drogas enterais, 10% a 20% ao dia, aumentando a cada 24h o
intervalo entre as doses ou reduzindo as doses individuais, podendo levar dias
ou até semanas, dependendo do grau de abstinência do paciente.
** Se for observada abstinência durante a retirada da
metadona e do lorazepam, aumentar a dose novamente para o nível em que o
paciente estava assintomático e continuar o desmame mais lentamente.
Por Alfa-2 agonistas:
- Clonidina: 1-4 mcg/kg/dose, de 6/6 horas, VO.
Após 24h do início da clonidina oral, deve ser iniciado o
desmame de 0,2-0,5mcg de dexmedetomidina a cada 24 horas, até atingir a dose
mínima e o desmame total. Depois, proceder ao desmame da clonidina oral a cada
48h.
Usar medidas não farmacológicas de controle da ansiedade e
da dor (manipulação mínima, ambiente silencioso e com pouca luz, música suave,
toque terapêutico, “objetos de transição”, embalar).
Fazer rodízio sistemático de analgésicos e sedativos.
DELIRIUM
Fatores de Risco
• Idade (< 2 anos)
• Gravidade da doença
• Atraso do desenvolvimento/ condição crônica preexistente
• Subnutrição
• Cardiopatia congênita/ PO de cirurgia cardíaca (com
circulação extracorpórea prolongada)
• Episódio anterior de delirium
• Imobilidade/ uso de restrição física
• Ruptura do ciclo sono-despertar (diminuição da quantidade
e da qualidade do sono)
• Terapia de substituição renal contínua/ ECMO/ transfusão
de sangue
• Necessidade e duração da ventilação mecânica
• Controle inadequado da dor
• Uso prolongado de benzodiazepínico/ opioide/ clonidina/
dexmedetomidina/anticolinérgico/ inotrópicos-vasopressores/ corticosteroides/
antiepilépticos
Diagnóstico
• Difícil, especialmente em mais jovens. Associa-se ao risco
de autoextubação, retirada de cateteres e queda do leito e representa um
estresse ao paciente, ao staff e à família.
• Sintomas:
• Cognitivos (memória, concentração)
• Percepção (alucinações visuais)
• Emocionais (irritável, assustado)
• Distúrbios psicomotores (agitação)
• Apatia, não responde a interações
O diagnóstico se baseia na avaliação seriada da criança,
idealmente a cada 12 horas durante a internação na UTI e pode ser confirmado
pela aplicação de escalas específicas:
Richmond
Agitation-Sedation Scale (RASS) (Anexo 2) e Cornell Assessment of Pediatric Delirium
(CAPD).
RASS:
• Delirium hipoativo (pontuações de -3 a -1), hiperativo (+1
a +4) e misto (flutuações
entre valores positivos e negativos).
CAPD:
• Pontuação ≥ 9: delirium.
Tratamento
Tratamento não farmacológico:
• Suporte e presença familiar – brinquedos favoritos, fotos
da família à beira-leito
• Redução da luz à noite, promover ajuste do sono
• Estimulação cognitiva e reorientação do paciente
(manutenção de óculos e próteses auditivas)
• Otimizar estimulação sensorial – se delirium hiperativo,
mudar para ambiente mais tranquilo; se hipoativo, aumentar interação social
• Descontinuar drogas que promovem delirium, se possível
• Exercícios físicos e mobilização precoce.
Tratamento Farmacológico:
Antipsicóticos Típicos (haloperidol, clorpromazina):
- Inibem receptores dopaminérgicos
- Indicados nos casos de delirium com agitação
Antipsicóticos Atípicos: (risperidona, olanzepina,
ziprasidona):
- Atuam nos receptores domaninérgicos e nos
neutrotransmissores serotonina, acetilcolina e norepinefrina
- Utilizados preferencialmente nos casos de delirium misto e
hipoativo
Rodízio de Sedativos e Analgésicos
A literatura tem demonstrado aspectos positivos da rotação
de sedativos e analgésicos em pacientes sob uso de ventilação mecânica
prolongada, sendo os principais benefícios a sedação mais leve e o desmame mais
rápido da ventilação mecânica, bem como a menor incidência de tolerância e
delirium. Portanto, o rodízio deverá ser realizado semanalmente.
Desta forma, é importante deixar na prescrição a data do
início da sedação, e de acordo com a condição clínica do paciente e a previsão
de manutenção ou não da sedação, será realizado o rodízio. A administração de
sedativos e analgésicos em “bolus de resgate” deve ser minimizada; se mais que
quatro administrações “de resgate” em 24 horas forem necessárias, deve-se
reavaliar o esquema terapêutico.
No caso de dificuldades na obtenção da sedação e analgesia
desejadas, mesmo após o rodízio, algumas opções podem ser consideradas de
acordo com a avaliação clínica.
Fonte: Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto





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